Por Carlos Miranda Levy · 14 de julho de 2026
Que não decidam as lojas de brinquedo nem os influenciadores: exponha opções, observe a qual a sua filha ou filho responde — e regue ali. Por que o fandom é uma academia cognitiva, e por que o piano com poeira também está tudo bem.
Transcrição do vídeo
Quem decide o que apaixona a sua filha ou o seu filho? Se você não rega ao lado dela, quem decide são as lojas de brinquedos e os influenciadores. A paixão não é um capricho: é o cérebro conectado à intenção, ao sentido e à emoção. Primeiro movimento: exponha, não imponha. Monte um cardápio variado — a biblioteca, um esporte, um instrumento, o fandom do primo. Amostras pequenas: um livro emprestado antes de uma coleção. O cardápio é seu; a escolha, jamais. Segundo: observe a resposta. Ao que ela volta sozinha, sem ninguém lembrar? Do que ele fala no carro? O que rabisca nas margens? Isso — não o que você sonhou — é o sinal. Terceiro: regue onde brotou. Quando algo pega, leve o apoio para lá: os livros disso, a aula disso, seu interesse genuíno nisso — mesmo que você esperasse o microscópio. E quarto: aceite o pó. O que não pegou, deixe em paz — sem drama e sem faturas. O instrumento que junta pó não é um fracasso: é informação. E o fandom “inútil”? É uma academia disfarçada: quem domina a genealogia completa dos deuses gregos está memorizando, associando e estruturando ideias — exatamente os músculos que depois levantam a matemática. A paixão não se fatura. Se rega.
Há um músculo que quase nenhum plano educacional menciona e que decide mais do que quase todos: o músculo de se apaixonar. A capacidade de que algo te importe tanto que o cérebro inteiro se alinhe atrás — memória, atenção, propósito, emoção, tudo puxando na mesma direção. Esse músculo, como qualquer outro, se desenvolve com exercício.
E aqui a pergunta incômoda: na vida da sua filha ou do seu filho, quem decide no que ele se exercita? Porque alguém decide. Se não é você com um cardápio de opções, serão as megacorporações, os influenciadores, a loja de brinquedos, a campanha publicitária da temporada. O algoritmo tem um plano para a atenção do seu filho. A pergunta é se você tem um melhor.
E não é paranoia de pai. O grupo de trabalho da Associação Americana de Psicologia sobre publicidade e infância revisou a evidência e concluiu duas coisas incômodas: que crianças menores de sete ou oito anos não reconhecem a intenção persuasiva de um anúncio, e que a preferência por um produto pode aparecer com uma única exposição e se reforça com a repetição — preferências que depois se convertem em pedidos que sim movem a compra dos pais. Ou seja: do outro lado do cardápio há um profissional. O mínimo é que do seu lado tenha alguém olhando.
A proposta é simples de enunciar e de uma vida inteira de executar:
Permitir — e habilitar — que se apaixonem: por futebol, por beisebol, pelo universo cinematográfico da Marvel. Porque é isso a paixão: o cérebro conectado com intenção, propósito e emoção. Não há estado cognitivo mais caro de fabricar nem mais barato de desperdiçar.
Isto é prática de casa, não protocolo de laboratório — mas tem parentes sérios. As duas pesquisadoras que formularam o modelo de fases do desenvolvimento do interesse o descrevem assim: primeiro alguém ou algo o dispara de fora, depois é preciso apoio para voltar de novo e de novo ao mesmo conteúdo, e só no final o interesse se sustenta sozinho. Em suas palavras, «o disparo do interesse pode ser fortuito ou facilitado por outros», e nas fases iniciais o aprendiz «pode precisar de apoio de outros para se engajar». Traduzindo para casa: no início de toda paixão há um adulto que colocou algo na mesa e ficou por perto. E há uma segunda notícia, de outra linha de pesquisa: entre adultos jovens, os que acreditavam que os interesses se cultivam sustentaram melhor um interesse novo quando ficou difícil do que os que acreditavam que os interesses se descobrem, já prontos, esperando. A ideia de que a paixão se encontra é, ao que parece, parte do problema.
Pense um momento. Qualquer criança de oito anos consegue nomear e descrever dezenas de feitiços dos livros de Harry Potter. Qualquer fã de Percy Jackson enumera o panteão grego inteiro — com as tramas de cada deus e as aventuras e desgraças da sua descendência. Pode ser que isso não pareça caminho para uma nota máxima em matemática ou ciências.
Pode ser que seja. E pode ser mais eficaz do que qualquer técnica que a gente tente para que exercitem o cérebro: memorizar, associar conceitos, estruturar ideias, fluxos, consequências — construir conhecimento. Essa última parte é convicção minha e não dado medido, e prefiro dizer isso antes que alguém me cobre por ela. O que está documentado é o fenômeno: uma grande etnografia da Fundação MacArthur —mais de seiscentas entrevistas e mais de cinco mil horas de observação de crianças com mídias digitais, com um estudo dedicado ao fandom de Harry Potter— descreve o que seus autores chamam de geeking out, e o define por «altos níveis de conhecimento especializado» dentro de comunidades que reconhecem e hierarquizam essa expertise. Também esclarecem algo que favorece os pais: dá para geekar com qualquer coisa, incluindo esportes e música, não só com o que a cultura marca como nerd. Escute duas crianças de qualquer idade discutirem por horas os detalhes mais mínimos de Homem de Ferro ou Death Note, de Messi, Mbappé, Yamal ou Haaland, de Bobby Witt Jr. ou Elly De la Cruz, ou das suas estrelas de K-Pop. Isso que soa a recreio é treino de alto rendimento: taxonomias, cronologias, estatística comparada, argumentação com evidência. O músculo não sabe se é exercitado com deuses gregos ou com tabela periódica — mas só aparece para treinar quando há paixão na sala.
A consequência prática para um pai é libertadora: você não precisa que ele ame o que você escolheu. Precisa que ele ame algo — e estar por perto quando ele encontrar.
Aqui me cabe falar em primeira pessoa, porque esta prática eu vivi — e ela tem a sua objeção clássica em casa.
A avó do meu filho costumava me dizer: «você vai mimar demais ele com tanto brinquedo e livro». Eu discordava: não era abundância por abundância — eram opções, fontes alternativas de estímulo para explorar. Suponho que Montessori teria concordado comigo; a avó, nunca de todo. E, para ser justo, Montessori só me daria razão pela metade: ela escreveu que a casa das crianças é «o ambiente que se oferece à criança para que tenha a oportunidade de desenvolver suas atividades», e deu ao adulto um lema que assino inteiro — «espera enquanto observa» —, mas seu ambiente preparado era deliberadamente sóbrio, não um catálogo. Na parte material, a avó mantinha o seu ponto.
Treze anos depois, o que eu vejo em casa — e conto como testemunho, não como fórmula — é isto: meu filho me diz «pai, não precisamos de mais jogos, não precisamos de mais livros — ainda tenho um par na fila». Nunca me pediu um brinquedo visto numa propaganda. Não vive com sensação de carência, mas com uma noção clara — consciente e inconsciente — do que gosta, do que o satisfaz e do que lhe dá alegria.
O caminho foi o ciclo desta prática, volta após volta. Quando ele descobriu Minecraft, pintamos o quarto dele como um mundo de Minecraft. Quando a paixão foi Ducktales, apareceram todos os quadrinhos e as coleções vintage de Tio Patinhas — minha irmã Nani ajudou com isso desde a Suíça. Quando ele entrou de cabeça em Harry Potter, estavam os livros e os acessórios. Quando chegou Percy Jackson, a casa inteira virou grega e mitológica — e depois egípcia, e nórdica, à medida que Rick Riordan expandia o seu império literário. Quando ele descobriu Portal, houve jogo de tabuleiro, camisetas e adesivos. E com Gravity Falls chegamos ao ponto mais alto do ofício: nos fantasiamos de Dipper e do Tio Stan. Exercitamos o músculo da paixão. Hoje é Hollow Knight, Silksong, Deltarune e Undertale. Amanhã será cirurgia cardíaca ou fusão nuclear. O músculo é o mesmo.
E o contrapeso, que é metade da lição: meu filho tem ouvido musical perfeito — reproduz uma melodia depois de ouvi-la uma vez — e o piano elétrico, que não foi barato, acumula poeira no quarto dele. E eu estou em paz com isso. Porque a prática não é «tudo o que eu compro tem que render»: é expor, observar, regar — e aceitar a poeira do que não pegou. O piano não é um fracasso. É informação. A paixão não se fatura.
Para que o conselho não se deforme pelo caminho:
A ficha para levar: Exercite o músculo da paixão.
Frase âncora: O músculo não sabe se treina com deuses gregos ou com tabela periódica — mas só aparece quando há paixão na sala. Seu trabalho não é escolher a paixão: é montar o cardápio, olhar de verdade, e regar onde brotou.
Nota de Carlos — o autor
De todas as práticas desta casa, esta é a que tem mais anos em execução e a que defendo com menos dúvidas. Só acrescento o segredo operacional: o ciclo funciona porque o interesse do pai é real. Os quadrinhos do Tio Patinhas eu também li.
Sancho — o Escudeiro
O fornecedor oficial de figurino de cada campanha — esse sou eu e esse é este artigo! Quando o cavaleiro muda de empreitada, o escudeiro não cobra dele a armadura velha: consegue a nova. Do castelo ao Olimpo, do Olimpo ao portal, do portal à cabana do mistério — a bagagem muda, o acompanhante não. E aponto a finura do texto: regar onde brotou não é o mesmo que semear à força. Até um escudeiro sabe que o burro não galopa por mais esporas que a gente ponha.
Marina Haddad — a voz da evidência
Boas notícias da minha cadeira: aqui sim há campo real por trás. O desenvolvimento do interesse se estuda a sério — há modelos de como um interesse situacional se converte em interesse sustentado, e uma área inteira sobre o que os fãs aprendem em suas comunidades. O research prompt deste artigo vai dizer o que se pode citar e o que fica em raciocínio. Meu único matiz: a parte de «pode render mais do que qualquer outra técnica» é a voz do autor, não um resultado medido — e gosto que o texto o apresente como convicção vivida, não como dado. É assim que se faz.
Nonna Lucia — o olhar da avó
Vou defender por um segundo a avó do texto, porque eu já disse essa frase — «você vai mimar demais ele» — e sei de onde ela sai: de gerações em que os brinquedos eram três e os livros, um luxo. Não é mesquinhez: é outra aritmética. Mas eu vi a diferença entre a criança cheia de coisas e a criança cheia de opções, e não é a quantidade — é se há um adulto olhando de verdade ao que ela responde. Com isso, até esta velha se convence. Sem isso, a avó tinha razão.
Polo — o zelador encerra
Os parentes deste músculo na biblioteca (e abaixo, pela primeira vez, a lista de onde saiu o que aqui se afirma — o zelador também arquiva): Colecionar a sério para quando a paixão pede arquivo, Hoje quem ensina é você para o fandom fluir na sua direção, A biblioteca às sextas como bufê de custo zero, e Seja o sparring dele para quando a paixão pede quadra. A ficha para levar: Exercite o músculo da paixão. E um segredo de zelador: as paixões novas quase sempre entram pela porta de serviço — ninguém as anuncia.
Cada fonte desta lista foi consultada diretamente no texto original antes de ser citada. As que sustentam raciocínio e não medição estão ditas como tais, aqui e acima. A auditoria completa, afirmação por afirmação, está em resources/research/el-musculo-de-la-pasion.md.
Hidi, S. E., e Renninger, K. A. (2021). By Developing Interest Educators Can Motivate Learning. IDEA Paper #86, The IDEA Center. → ideacontent.blob.core.windows.net Sustenta que o interesse se desenvolve por fases, que pode se desenvolver em qualquer pessoa e em qualquer matéria, que «o disparo do interesse pode ser fortuito ou facilitado por outros», e que nas fases iniciais o aprendiz precisa de apoio externo enquanto nas tardias o interesse se autogera. É um artigo de síntese das próprias autoras do modelo, escrito para docentes do ensino superior.
Hidi, S., e Renninger, K. A. (2006). The Four-Phase Model of Interest Development. Educational Psychologist, 41(2), 111–127. → registro ERIC EJ736298 O artigo fundacional que propõe as quatro fases: interesse situacional disparado, situacional mantido, individual emergente e individual bem desenvolvido. Do original só se consultou o resumo; o texto completo está atrás de paywall.
O’Keefe, P. A., Dweck, C. S., e Walton, G. M. (2018). Implicit theories of interest: Finding your passion or developing it? Psychological Science, 29(10), 1653–1664. → PMC6180666 Sustenta o matiz de que «os interesses se cultivam, não se descobrem»: em cinco estudos com universitários e estudantes de community college (N entre 44 e 141), os que sustentavam uma teoria fixa do interesse mostraram menos abertura a temas novos e uma queda maior do interesse ao aparecer a dificuldade. Amostras de adultos jovens, não de crianças; mede crenças, não práticas de criação.
Vallerand, R. J. (2008). On the Psychology of Passion: In Search of What Makes People’s Lives Most Worth Living. Canadian Psychology, 49(1), 1–13. → selfdeterminationtheory.org Sustenta a distinção entre paixão harmoniosa e obsessiva, os três motores do desenvolvimento de uma paixão (seleção da atividade, valorização e internalização), e o achado citado em «a armadilha do projeto»: apoio à autonomia dos adultos próximos → paixão harmoniosa; alta valorização parental sem esse apoio à autonomia → paixão obsessiva. É a síntese do próprio autor do seu programa de pesquisa; o estudo de música ali resumido figurava então como ainda não publicado.
Ito, M., Baumer, S., Bittanti, M., boyd, d., Cody, R., Herr-Stephenson, B., Horst, H. A., Lange, P. G., Mahendran, D., Martínez, K. Z., Pascoe, C. J., Perkel, D., Robinson, L., Sims, C., e Tripp, L. (2010). Hanging Out, Messing Around, and Geeking Out: Kids Living and Learning with New Media. The MIT Press. → PDF completo Sustenta o que se afirma sobre o fandom: 659 entrevistas semiestruturadas e mais de 5.194 horas de observação (2006–2007), com estudos dedicados ao fandom de Harry Potter e ao de anime; define geeking out pelos seus «altos níveis de conhecimento especializado» dentro de comunidades que reconhecem essa expertise, e esclarece que dá para geekar com esportes ou música tanto quanto com o marcadamente nerd. É etnografia qualitativa: documenta o que as crianças sabem e fazem, não mede transferência para resultados escolares.
Gee, J. P. (2004). Situated Language and Learning: A Critique of Traditional Schooling, cap. 6, «Affinity Spaces». Routledge. → PDF do capítulo Sustenta o marco dos «espaços de afinidade»: comunidades organizadas ao redor de um interesse compartilhado e não da idade ou da classe, onde novatos e mestres convivem no mesmo espaço. É um marco conceitual com um caso ilustrativo —uma comunidade de fãs de um jogo sobre mitologias—, não um estudo empírico.
Jenkins, H., com Clinton, K., Purushotma, R., Robison, A. J., e Weigel, M. (2006). Confronting the Challenges of Participatory Culture: Media Education for the 21st Century. The MacArthur Foundation. → PDF Sustenta a descrição da cultura participativa e sua «mentoria informal, pela qual o que sabe o mais experiente se transmite aos novatos». É um documento de posição: fala de benefícios «potenciais» e do que a literatura «sugere», não de efeitos demonstrados.
Montessori, M. (1914). Dr. Montessori’s Own Handbook. Frederick A. Stokes Company. → Project Gutenberg #29635 Sustenta as duas frases que lhe são atribuídas acima: que a casa das crianças «é o ambiente que se oferece à criança para que tenha a oportunidade de desenvolver suas atividades», e o lema do educador, «espera enquanto observa». Não sustenta a abundância material: seu ambiente preparado é limitado e ordenado.
Wilcox, B. L., Cantor, J., Dowrick, P., Kunkel, D., Linn, S., e Palmer, E. (2004). Report of the APA Task Force on Advertising and Children. American Psychological Association. → PDF Sustenta o que se afirma sobre publicidade: que crianças menores de sete ou oito anos não reconhecem a intenção persuasiva dos anúncios, e que a preferência por um produto pode aparecer com uma única exposição, se reforça com a repetição e se traduz em pedidos que influenciam a compra dos pais. É de 2004 e sua base empírica é a televisão; não cobre plataformas algorítmicas nem influenciadores — «o algoritmo» deste artigo é figura de linguagem do autor, não dado desta fonte.
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