Duas horas depois de adormecer, ele se senta de repente gritando, com os olhos abertos, suado, agitado. Você o chama e ele não responde: parece acordado mas não te vê, não te reconhece, e tudo o que você faz para acalmá-lo parece piorar.
Vê-lo assim aterroriza: parece possuído, não se conecta com você e o seu instinto de acordá-lo e abraçá-lo não funciona — até o agita mais. Aparece o pânico ('será que ele tem algo grave?') e uma impotência horrível de não conseguir consolar o seu próprio filho. Respire: mesmo que pareça dramático, isto quase nunca é perigoso. Não é um pesadelo nem dor: é o cérebro que se enrolou ao passar de uma fase do sono para outra. Ele não está sofrendo como parece, e de manhã nem vai lembrar.
Separe o aparatoso do real. O terror noturno é um fenômeno do sono profundo, diferente do pesadelo: ocorre na primeira metade da noite, a criança não está realmente acordada mesmo com os olhos abertos, não responde, e na manhã seguinte não lembra de nada (no pesadelo ela acorda de verdade, te procura, e sim lembra do sonho). É comum em pré-escolares e escolares, tem um forte componente de maturação e hereditário, e costuma desaparecer sozinho com os anos. Dispara com o que fragmenta o sono profundo: cansaço extremo, falta de soneca, febre, dormir pouco ou fora de hora, superexcitação ou muito estresse no dia. O mais importante: quase sempre assusta muito mais os pais do que a criança, que não está vivendo como você vê. A sua tarefa não é acordá-lo, é cuidar para que não se machuque e esperar passar.
Não tente acordá-lo à força nem o sacuda — ele está em sono profundo e acordá-lo de repente o desorienta mais e alonga o episódio. Não o interrogue nem exija que reaja: ele não pode, não te ouve. Não o abrace com força para 'contê-lo' se isso o agita mais; às vezes o seu contato piora, e basta estar perto. Não o castigue nem o envergonhe de manhã por algo que ele não lembra nem controla. E não conte no dia seguinte com dramatismo o que aconteceu: você vai criar nele medo de dormir por algo que ele nem viveu.
Sem ranking, de propósito: não há dois filhos iguais, e o seu nem sequer é o mesmo de ontem. Leia qual encaixa na sua casa, hoje — ou combine.
No episódio, o mais eficaz costuma ser o mais difícil: não acordá-lo. Fique perto com voz baixa, retire o que possa machucá-lo, cuide para que não caia nem se bata, e deixe o episódio seguir o curso — costuma durar de alguns minutos a um tempinho e termina sozinho, com ele voltando ao sono profundo. 'Estou aqui, você está seguro', dito com calma, mais para você do que para ele. A sua quietude é o cuidado.
Como são disparados pelo sono profundo alterado, a melhor prevenção é um descanso ordenado: deitá-lo antes que chegue ao esgotamento, respeitar sonecas se ainda precisa, horários regulares, e uma última hora tranquila sem telas nem superexcitação. Uma criança menos exausta tem menos episódios. Não é garantia, mas move o ponteiro mais do que qualquer coisa que você faça durante o episódio.
Baixe o seu próprio alarme e o do resto da casa: é aterrorizante de ver, mas saber o que é tira o drama. Explique ao parceiro, aos avós ou a quem cuida o que fazer (não acordá-lo, só cuidar). E não transmita à criança o seu susto no dia seguinte. Que a casa entenda o fenômeno evita que um episódio benigno vire um problema de ansiedade para todos.
Durante o episódio não há conversa possível — é puro cuidado silencioso. A prevenção (o sono, os horários) se trabalha de dia e com constância. Se você percebe que os terrores ocorrem a uma hora bem fixa, alguns pais tentam um despertar suave e breve uns vinte minutos antes dessa hora para 'reordenar' o ciclo; faça isso só se o padrão for claro e com orientação. Alinhe-se com quem cria com você para que todos respondam igual, e tenha paciência: isto é das coisas que o tempo quase sempre resolve sozinho.
Os terrores noturnos costumam ser benignos e desaparecer com a idade, sem precisar de mais que cuidado e bom sono. Convém consultar o pediatra ou um especialista em sono se os episódios são muito frequentes (vários por semana durante muito tempo), se duram muito, se aparecem ou se intensificam de repente numa criança maior ou na segunda metade da noite, se vêm com movimentos rítmicos, rigidez ou estranheza que façam duvidar de outra coisa, se ele se machuca durante eles, ou se estão afetando o descanso e o dia dele. Também vale olhar se coincidem com um estresse forte ou uma mudança grande que valeria a pena atender. Isto é comentário entre pares, não conselho clínico: na dúvida, uma consulta precoce com o pediatra tranquiliza e descarta o pouco frequente.
Todo o conteúdo desta casa é comentário e sugestões entre pares — não substitui a ajuda profissional. É responsabilidade de cada mãe e cada pai identificar a situação e buscá-la quando puder servir. Se precisar de um número, consulte o diretório de linhas de ajuda por país. O aviso completo, aqui.
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