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beta · situação em rascunho — comentário entre pares, não conselho profissional
Situações

Tem vergonha de como o corpo muda

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Começou a se esconder: roupa larga para tapar o que cresce, cruzar os braços, não querer que a vejam, um 'não me olha' quando você passa perto. O corpo dela está mudando à vista, e ela leva isso com uma vergonha que te parte um pouco.

O que se mexe por dentro de você

Pode te dar ternura, um pouco de nostalgia ('já não é a menininha de antes') e o impulso de arrumar a vergonha dela com um elogio rápido ou uma piada para tirar o peso. Cuidado com as duas: o elogio automático não a convence e a piada sobre o corpo dela, mesmo carinhosa, cai como chumbo quando a gente está se olhando com lupa. Nomeie o seu próprio desconforto por dentro —muitos de nós custamos a ver os filhos crescerem— e deixe de lado: hoje não é sobre o quão estranho fica para você, é sobre ela poder habitar um corpo que muda sem sentir que há algo de errado nele.

O que pode estar acontecendo

Esta situação é sobre o evento emocional —a vergonha pelas mudanças visíveis da puberdade—, não sobre a biologia do desenvolvimento, que é um processo longo e o tratamos com mais detalhe nas etapas. O primeiro que convém saber: esta vergonha é normalíssima. O corpo muda rápido, fora de compasso com a cabeça e com o dos outros, e em plena idade de se comparar o tempo todo — é um coquetel feito para o desconforto. Distinga o pudor normal (querer privacidade, se cobrir, que não comentem) do mal-estar que isola (odiar o corpo, evitar qualquer situação onde se veja, deixar de fazer coisas). Conta também o ritmo: se desenvolver bem antes ou bem depois do grupo pesa forte. E olhe o clima de casa: leva-se melhor o corpo que muda num lar onde os corpos não se comentam nem se julgam.

O que é melhor evitar

Não faça comentários sobre as mudanças do corpo dela, nem de brincadeira nem 'para que se acostume' nem na frente de ninguém ('olha como cresceu', 'já é toda uma mocinha') — você a envergonha justo onde ela está mais frágil e ensina que o corpo dela é tema de comentário público. Não a force a se mostrar nem a 'largar a vergonha' ('não seja boba, não é nada'): o pudor merece respeito, não correção. Não a cubra com elogios automáticos que ela não acredita. Não invada a nova privacidade dela (entrar sem bater, comentar a roupa íntima, a balança): o corpo que muda pede mais intimidade, não menos. E revise como você fala do seu próprio corpo e do alheio: é de lá que ela tira a régua com que se mede.

Portas de entrada

Várias — nunca uma só

Sem ranking, de propósito: não há dois filhos iguais, e o seu nem sequer é o mesmo de ontem. Leia qual encaixa na sua casa, hoje — ou combine.

A porta de normalizar sem dramatizar

O melhor antídoto é a naturalidade: que ela receba de você, com calma, que o que acontece com ela é normal, acontece com todo mundo, e não tem nada de errado nem de vergonhoso. Não precisa de discurso; às vezes basta o tom com que você não se alarma. 'O seu corpo está fazendo o que tem que fazer, no ritmo dele, e está tudo bem.' Se você trata como a coisa mais natural do mundo, dá a ela permissão para tratar igual.

Quando encaixa: Sempre a primeira porta. A sua naturalidade desativa mais vergonha do que qualquer explicação.

A porta da privacidade que respeita

O corpo que muda precisa de uma intimidade nova, e respeitá-la é uma forma de carinho. Bater antes de entrar, não comentar o que se vê, deixar o espaço dela para o banho, a roupa, o espelho. Não é que ela te afaste; é que está aprendendo a habitar um corpo que sente mais dela e mais exposto. Quando você respeita esse pudor sem se ofender, você diz a ela: o seu corpo é seu, e nesta casa isso se honra.

Quando encaixa: Em toda esta etapa. O respeito à privacidade ensina mais sobre a dignidade do corpo do que qualquer conversa.

A porta do canal aberto para as dúvidas

Atrás da vergonha costuma haver perguntas que ela não se atreve a fazer: isso é normal? por que a mim antes/depois? o que está acontecendo comigo? Deixe a porta aberta sem forçar: fique disponível, responda com verdade e no nível dela quando perguntar, e se é você quem nota que algo a inquieta, ofereça sem invadir ('se algum dia você quiser falar disso, estou aqui, sem drama'). O café dos dois ou um trajeto de carro abrem mais do que um interrogatório.

Quando encaixa: Quando você intui perguntas caladas. A disponibilidade tranquila faz com que ela recorra a você e não só à internet.

A porta do ritmo próprio

Boa parte da vergonha é comparação: se desenvolver antes ou depois do grupo. Ajude-a a soltar o cronômetro: cada corpo tem o seu calendário, nenhum vai 'mal', e o dos outros não é a régua. Se a incomodam por estar adiantada ou atrasada, isso já beira a crueldade sobre o corpo e se acompanha como tal (ver a situação irmã). Saber que o ritmo dela é legítimo a protege de se medir pelo relógio de outro.

Quando encaixa: Quando o desconforto vem de se comparar com o grupo. Especialmente útil em desenvolvimentos muito precoces ou muito tardios.

O momento

Isto não se resolve numa conversa: é um clima de respeito e naturalidade que se sustenta durante toda a etapa. A normalização se dá em doses pequenas e oportunas, quando surge, não numa palestra solene. O respeito à privacidade é de todos os dias. As dúvidas se respondem quando ela abre a porta ou quando você oferece sem forçar, num momento tranquilo e a sós. E o processo completo do desenvolvimento se acompanha no tempo longo e se trata com mais detalhe nas etapas. Olhe a previsão: a vergonha se conversa melhor sem público e sem pressa.

Quando buscar mãos profissionais

A vergonha pelas mudanças do corpo é uma parte normal de crescer — não pede profissionais por si só. Preste atenção e considere apoio se o pudor normal se transforma em mal-estar que limita a vida: rejeição intensa e sustentada ao próprio corpo, evitar por completo situações onde se veja (piscina, esporte, câmera, comer com outros), isolamento, ânimo baixo persistente, ou qualquer sinal de que o desconforto com o corpo está derivando em restrição de comida, obsessão ou condutas de controle (aí ver 'Deixou de comer bem'). No médico, consulte o pediatra se o desenvolvimento chega muito cedo ou muito tarde em relação ao esperado, para o caso de convir revisá-lo. O que oferecemos aqui é comentário entre pares, não conselho médico nem psicológico: distinguir o pudor saudável do mal-estar que isola é responsabilidade nossa como pais, e consultar cedo com o pediatra ou a orientação não é exagero — é ler o sinal a tempo.

Todo o conteúdo desta casa é comentário e sugestões entre pares — não substitui a ajuda profissional. É responsabilidade de cada mãe e cada pai identificar a situação e buscá-la quando puder servir. Se precisar de um número, consulte o diretório de linhas de ajuda por país. O aviso completo, aqui.

Da biblioteca

Quer mais olhares sobre esta situação? Pergunte ao painel — seis perspectivas de uma vez — ou converse com uma voz da mesa.